Nas paradas musicais de hoje em dia, você, com certeza, encontrará alguma música reivindicando algo ou lutando por algum grupo pouco representado na mídia em que vivemos: isso é o chamado pop militante. Ele é muito utilizado atualmente, em especial depois das redes sociais, tanto para chamar atenção a alguma causa importante, quanto para lucrar em cima dessas minorias que estão de fora dos holofotes.
Depois de perceberem que essas personagens pouco representadas na mídia podem gerar lucro para eles, muitos artistas levantam bandeiras apenas para repercutir e trazer as câmeras para si, porém sua única visão naquela ação é o lucro e os espectadores de sua “militância”. Em linhas gerais, pode se dizer que esse é um movimento diretamente ligado ao universo da publicidade e do consumo. A definição de música pop é propositalmente flexível.

Para entender melhor essa ideia, precisamos voltar algumas décadas e encontrar marcos em comum com os vividos atualmente. Nos anos 80 que o pop assume dimensões de um megagênero musical, por exemplo, Michael Jackson e Madonna apareciam como a realeza do pop, com canções que dominavam as paradas e mostravam a fórmula do sucesso para uma legião de artistas que viriam a seguir. Desde então, o gênero se estabeleceu como um sucesso comercial. Artistas como Cindy Lauper e Prince se estabeleceram na indústria por sua abordagem polêmica, controversa, cheia de atitude e sempre dando ao público aquilo que eles procuravam ouvir e comprar, com temas relacionados a religião, sexo e, principalmente, rebeldia.
Conforme nossa sociedade foi se abrindo e mudando seu pensamento, a cultura pop seguiu o mesmo caminho trazendo aquilo que gostaríamos de ver e ouvir. Artistas como a versátil Lady GaGa, que hoje em dia vai do jazz ao country, se erguem no mundo pop com diversas bandeiras para atrair diferentes públicos, como feminino e LGBTQ+, com músicas de aceitação e orgulho para qualquer tipo de minoria se identificar e abraçar uma artista que se mostre acolhedora.
Nessa indústria, o que mais vem acontecendo são determinados artistas que estão em decadência, como em questão de números de vendas, e começam a apoiar a causa sabendo que as mídias mais relevantes relacionadas à indústria musical estão direcionadas hoje em dia para um lado mais liberal quando falamos sobre minorias sociais. Com isso, são criados aqueles “ícones de minorias instantâneos” na música pop, que dão declarações simples de empoderamento como “todos merecem se amar” e o público alienado, mas também carente por representação, adota aquilo como um ícone, como é o caso da cantora Jojo Todynho, conhecida pelo empoderamento com seu corpo e sua cor, que recentemente lançou o clipe de “Arrasou, viado” e foi alvo de muitas críticas, principalmente por trazer uma letra que não acrescenta em nada ao movimento e ainda se utilizar do chamado “pink money”: expressão que se refere ao lucro obtido por quem se aproveita da causa da diversidade sem estar inserido nela.
Atualmente, um dos fatores mais em alta em nossa sociedade é a militância e luta pelos próprios direitos, sejam eles étnicos, de religião ou orientação sexual. Com essa nova onda de representatividade que vivemos, muitos artistas pegaram carona nessa ideia para se renovarem e trazerem um pouco de militância para suas músicas, dando um significado maior para as letras e para quem as escuta. Artistas como Beyoncé e Alicia Keys acharam a deixa para inspirarem seus ouvintes que, assim como elas, sofreram preconceito por sua cor. Álbuns recheados de dor, luta e tudo isso voltado à questão racial traz uma nova face dessas artistas que até esse momento não haviam se voltado para um tipo de público especificamente.

Uma outra artista que se destacou nessa mudança de direção foi Katy Perry, cujo primeiro sucesso foi uma faixa sobre beijar garotas. A cantora e compositora se mostrou bem mais militante em seu último álbum, “Witness”, 2017, após a vitória do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O primeiro single da obra, “Chained To The Rhythm”, além de conter um videoclipe com um cenário bem crítico e irônico de sua visão atual do país, possui denúncias como “tão confortáveis, estamos vivendo em uma bolha, bolha, tão confortáveis que não conseguimos enxergar o problema, problema”, que indicam uma sociedade “presa em sua cerca de madeira”, que pensa ser livre e está confortável demais para se importar e sair de seu senso comum. No videoclipe da faixa “Bon Appétit”, sua crítica foca na indústria em que vive e o que ocorre com os indivíduos nesse meio forjado pelo glamour, que usa a sexualização e materialização da mulher como um objeto.
Outro artista que se aproveitou recentemente dessa onda militante foi o Nego do Borel, com seu último lançamento “Me Solta”, que aparece no clipe travestido e beija um homem, porém sua ideia não agradou nem um pouco os internautas, que reclamaram de mais uma vez ver o estereótipo do homossexual caricato sendo executado por um homem hétero querendo levantar uma bandeira que não lhe cabe; contudo, muitos militantes aparecem para fazer a diferença nesse meio artístico, como a drag queen Pabllo Vittar, que surgiu na mídia para desconstruir paradigmas e libertar ideias tabus que, ao aparecer para o mundo sem medo e alcançar reconhecimento internacional com sua voz marcante e músicas chiclete, pôde trazer à tona várias outras cantoras que precisavam de visibilidade, tal qual Linn da Quebrada e Gloria Groove, que usam a música como um ato político, com mensagens de aceitação e contra a homofobia, militantes não somente pelo dinheiro e lucro às custas dessas minorias necessitadas de representação, mas ativistas que sentem na pele o que é estar fora dos padrões e serem discriminados por isso, ao precisarem impor seus próprios modelos a serem seguidos.

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